A menina que trabalha lá em casa, A secretária ou O problema das pessoas com o título “empregada doméstica”.

 

Das coisas interessantes que me aconteceram como vendedora, uma delas foi o pedido de uma senhora.

  • Ei, menina, você trabalha aqui?
  • ahã.
  • Ahh, então me ajude a encontrar uma blusa bem horrorosa, bem brega.
  • Hã?
  • É, uma bem horrível. Sabe, é um presente para a minha secretária.
  • Sua secretária?
  • É, a menina que trabalha lá em casa. Ela tem um péssimo gosto, tudo que é horrível ela gosta, e as coisas que eu gosto ela acha horrível. Daí me mostre uma coisa que eu vá odiar, que com certeza ela vai adorar.
  • Hummm, faz todo sentido. Bem, vejamos, tem essa amarela aqui, com esse babado horrível, blá blá blá

 

O final dessa história verídica não importa, o fato é, algumas pessoas não gostam de denominar suas empregadas de empregadas. Secretária. Como assim secretária? Bem, de fato elas exercem funções de secretária, atendem telefone, são muitas vezes administradoras, mas cadê a saínha com blazer? Como o cafezinho se transformou em almoço? E por aí vai. Pior é “a menina que trabalha lá em casa”. É um termo que eu sempre uso. E é totalmente inadequado, visto que ela está mais para a terceira idade do que para a mocidade. Mas ela não gosta que eu me refira a ela como empregada. Empregado é quem está trabalhando, certo? Se ela trabalha em um ambiente doméstico, é uma empregada doméstica. Assim como minha mãe é uma empregada, meu pai, eu, meu tio etc. Mas não, ela se ofende. Já tivemos uma discussão filosófica sobre isso. Mas dona Maria, eu disse, então quando alguém pergunta o que você faz da vida, o que você responde? Respondo que eu trabalho em casa de família, ora. Enfim. Vai entender.

Doméstica 

Foi trabalhar
Recomendada prá dois gringos
Logo assim
Que chegou do interior
Era um casal
Tipo metido a granfino
Mas o salário
Era tipo, um horror…

A tal da madame, tinha mania
Esquisitona de bater
E baixava a porrada
Quando a coisa tava errada
Não queria nem saber…

Doméstica!
Ela era
Doméstica!
Sem carteira assinada
Só caía em cilada
Era empregada
Doméstica!…

Nunca notou
A quantidade de giletes
Não reparou
A mesa espelhada no salão
Não perguntou
O quê que era um papelote
Baixou “os home”
Ela entrou no camburão…

Na delegacia
Sua patroa americana ameaçou:
“Lembra que eu sou
Uma milionária,
Eu fungava, de gripada
Não seja otária, por favor”…

Doméstica!
Traficante disfarçada
De doméstica
Era manchete nos jornais
O casal lhe deu prá trás
Sujando brabo prá doméstica…

No presídio aprendeu
Com as companheiras
A ser dar bem
A descolar, como ninguém
Ficou famosa
No ambiente carcerário
Com a mulata
Que nasceu prá ser alguém…

Pois não é que a
Doméstica!
Conseguiu uma prisão, doméstica
Saiu por bom comportamento
Mas jurou nesse momento
Vingar a raça das domésticas…

Então alguém
Lhe aconselhou logo de cara
“Dá um passeio
Vê se arranja um barão”
Porque melhor
Que o interior ou que uma cela
É ter turista e faturar
No calçadão…

Até que um dia
Um Mercedinho prateado buzinou
Era um louro alemão
Que lhe abriu a porta do carro
E lhe tacou um bofetão…

Doméstica!
Virou uma baronesa
Doméstica!
Mesmo com as taras do barão
Segurou a situação
Levando uma vida doméstica….

Realizada em sua mansão
Em Stutgard
Ouvindo Mozart de Beethoven de montão
Com um pivete
Mulatinho pela casa
Que era herdeiro
De olho azul como o barão…

Precisou de uma babá
Botou um anúncio
Bilíngüe no jornal
Seu mordomo abriu a porta
Uma loira meio brega
Uma yankee de quintal…

Doméstica!
Era a americana, de doméstica
A nêga deu uma gargalhada
Disse:
“Agora tô vingada
Tu vai ser minha
Doméstica”! …(2x)

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A caverna

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna viviam muitos bichinhos, mas nenhum urso. A grande maioria era cega e albina. Era uma vez uma caverna. Nessa caverna vivia um morcego, cego e não-albino. O morcego era frugífero, quando ficava com fome, saía da caverna para comer, ao crepúsculo, e retornava ao alvorecer. De volta à caverna, o morcego dormia em posição não-convencional e excretava seu guano[1].

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna não só vivia um como milhares de morcegos. Todos comiam frutas e excretavam guano. Era uma vez uma caverna. Nessa caverna vivia uma centopéia, cega e albina. Ela se alimentava do guano dos morcegos. Suas amigas se alimentavam de guano dos morcegos. Seu ex-namorado se alimentava de guano dos morcegos. Sua família se alimentava de guano dos morcegos. Todo seu círculo social se alimentava de guano dos morcegos.

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna viviam 9847239873928732 bactérias. Elas tinham DNA difuso, alguns ribossomos e flagelos[2]. Elas eram meras unicelulares, e procariontes, ainda por cima. Ninguém ligava para elas. Elas não eram cegas nem albinas, pois nem mesmo tinham olhos ou pele. E elas pouco se importavam com isso, viviam em seu universo à parte, não ligavam para fofocas.

Era uma vez uma caverna. Nessa caverna havia o clubinho dos decompositores. Era um clubinho fechado, seus integrantes eram conhecidos por serem nojentinhos. Nojentos no sentido físico da palavra, do tipo causadores de “argh”. Eles se reuniam toda quarta-feira para fumar cachimbo, beber Red Label e jogar poker ouvindo Jorge Vercilo. Porém a nova geração de decompositores achava isso sem graça, e preferiam se reunir as sextas, sábados e vésperas de feriados para fumar maconha, beber São Jorge e jogar dominó.

“O sertão vai virar mar

Dá no coração

O medo que algum dia

O mar também vire sertão

Vai virar mar

Dá no coração

O medo que algum dia

O mar também vire sertão”

(Sobradinho, Sá e Guarabira)

Era uma vez uma caverna. Ela não ficava no sertão. Mas um dia, quando o Sertão virou mar, ela foi inundada. E esse foi o seu fim, pois suas paredes não sabiam nadar.

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 [1] Guano é o nome dado as fezes dos morcegos. Pode ser usado como um excelente fertilizantedevido aos seus altos níveis de nitrogênio. O solo que é deficiente em matéria orgânica pode tornar-se mais produtivo com a adição de fezes. O guano é composto de amoníaco, ácido úrico, ácido fosfórico, ácido oxálico, ácido carbônico, sais e impurezas da terra.

[2] O flagelo bacteriano é um tubo oco, com 20 nanômetros de espessura, composto pela proteína flagelina, de forma helicoidal com uma dobra à saída da membrana celular chamada “gancho”, que faz com que a hélice fique virada apara o exterior da célula.

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Metrô

Hum… e aí? E aí. Ehr… belo dia. Pois sim. Nossa, pois sim, a quanto tempo não ouvia isso de ninguém. Não é? É. (…) Você não é mais tão novinho. É, não é? Você ainda tem todos os seus avós? Por parte de mãe, só. Seu pai é orfão, então. É, não é? É. (…) Cara, você não quer conversar comigo mesmo, né? Eu não tô conversando? Tá. Então? Mas é que… sei lá. Enfim. Enfim. (…) Vem cá, você prefere arroz ou macarrão? Depende do acompanhamento. Não, digo, assim, fale sem pensar, fale com o coração, qual dos dois você gosta mais, você prefere? Opa, meu ponto, eu salto aqui. Tchau então. Até. Enfim.

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O Magnífico Garfo Azul

Era uma vez, o Magnífico Garfo Azul.


Ele não era magnífico por ter feito algo incrível de fato, mas porque sua mãe assim o quis. Ela sempre dizia: “quando eu tiver um filho, o chamarei de Magnífico. Se for uma filha, chamarei de Laila.” Então, sendo um garfo, e azul, ao nascer foi chamado de Magnífico Garfo Azul. Seu pai queria chamá-lo de “o Magnífico Garfo Verde”, em homenagem ao Palmeiras (ele era um torcedor ufano), porém isso não fazia sentido, já que o garfo azul era azul, e não verde. Enfim.

O Magnífico Garfo Azul trabalhava no pólo petroquímico como operador de máquinas, e tinha um feliz casamento (gay) com o Incrível Alface.

Um pouco sobre o Incrível Alface:

O Incrível Alface não trabalhava fora de casa, pois tinha adquirido em sua infância fobia social. Só saía para ir ao mercadinho do Clóvis, que afinal ficava ao lado de sua casa. E isso em caso de necessidade, quando faltava caldo knorr, por exemplo.

O incrível alface fazia gnomos de biscuit e ímãs de geladeira para vender, e sempre fazia doações para a CCAAP (Casa de Cura para Alfaces Afetados por Pesticida). Costumava dormir após o almoço, e não gostava de bife acebolado.

Todos os dias o Incrível Alface preparava uma surpresa para o Magnífico Garfo Azul. Sempre que chegava do trabalho, o Magnífico Garfo azul encontrava comida especial, ou o Incrível Alface vestindo uma lingerie sexy. Era um casamento feliz.

Enfim.

O Magnífico Garfo Azul levava uma vida dupla, pois tinha um caso com Anastácia, a leviana. Ela lhe fazia bolos. Às vezes eles solavam. Mas só às vezes.

(Anastácia, a leviana)

O Magnífico Garfo Azul enganava Anastácia, a leviana, dizendo ser caixeiro viajante, por isso só aparecia de 15 em 15 dias, nos finais de semana.

Com Anastácia, a leviana, ele tinha um pequeno apartamento em um conjunto habitacional chamado Santa Lucrecia. Eles também possuíam alguns sapatos, um filho chamado Ricardo (uma linda célula procarionte, com ribossomos e DNA difuso), e até um cachorro poodle chamado Ray Charles, que enxergava muito bem.

O Magnífico Garfo Azul Ele visitava sua família bastarda dizendo ao Incrível Alface que iria visitar os seus primos distantes Colher de Sopa Verde e Colher de Sobremesa Roxa. Que grande mentiroso ele era!O Incrível Alface odiava a raça das colheres, pois foi foram as colheres que assassinaram seus pais e seus avós e todos os seus colegas de classe no deprimente Massacre dos Alfaces, que o deixou órfão bem na época de sua puberdade, marcando-o para sempre. Além do mais, ele tinha fobia social, e não iria junto de qualquer maneira.

O Magnífico Garfo Azul ficava quinzenalmente no apartamento de sua outra família durante todo final de semana, de sexta a domingo. lá ele encontrava a paz, e instruía seu filho Ricardo na arte de pintar unhas.

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O macarrão bom e o macarrão ruim

Era uma vez, dois pacotes de macarrão, um mau, e o outro bom. O bom era amado por todos e tinha a embalagem mais reluzente. O mau estava cheio de gorgulhos e ia ser trocado por um ingresso de show beneficente. Revoltado e invejoso, o macarrão mau resolveu se vingar.

– Ei, macarrão bom, que tal um banhinho numa hidro, heim? Que me diz?

– Seria ótimo!

– Pois então! Entra ali naquela banheira, em cima do fogão. Não, não é deca, é Tramontina. Aquela mesmo, borbulhando.

– Adoro hidromassagem!

– Então se joga rapaz!

E esse foi o fim do macarrão bom.”

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